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O legado silencioso de heróis [01]: Paulo Bastos e a Casa em Pinheiros


         Rem Koolhaas detestaria o título desta postagem. Em sua última passagem pelo Brasil, em Agosto de 2011, o arquiteto holandês lançou uma crítica a todos nós, no início da palestra que aconteceu no SESC Pompéia em São Paulo (leia mais aqui), dizendo mais ou menos que "os brasileiros costumam venerar seus arquitetos como heróis, desprovidos de enganos ou falhas".
         Muitos de nós, estudantes e profissionais, construímos na mente a imagem heróica de nossos arquitetos, principalmente do bonito período das décadas de 1950 e 1960, quando uma onda de excelentes projetos de uma talentosa geração começou a surgir.
         Na cidade de São Paulo, foi particularmente impressionante a quantidade de arquitetos talentosos em atividade naqueles anos. Anos de experimentação, quebra de paradigmas.
         Os profissionais, formados na USP ou Mackenzie, eram também ligados à academia (em sua maioria), numa constante atividade que se complementava entre teoria (aulas) e prática (projeto/canteiro de obras).
         Esses professores viriam a lecionar a gerações de futuros-arquitetos, passando pelas décadas do nascimento de Brasília, ditadura militar, até o renovado interesse internacional em nossa produção, que culminou com o projeto não construído para o Pavilhão de Sevilha, no início da década de 1990.

         Eles são heróis. Pelo que acreditavam. Pelo que questionavam. Pelo que projetavam. Heróis pois se dispuseram a mudar nossa sociedade através do desenho, fazer evoluir técnicas construtivas através do emprego de estruturas e materiais cada vez mais incomuns e impressionantes, questionar o status quo através da formulação de novos programas de necessidade.
         São heróis com um silencioso legado, que essa série de postagens pretende desvendar.

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Post 01:

Casa em Pinheiros (1970-1972)
[Paulo Bastos]


         Respeitando os recuos impostos pela legislação no bairro de Pinheiros, São Paulo, essa residência projetada pelo arquiteto Paulo Bastos (para ele mesmo e sua família) surge em declive, apoiada em apenas duas vigas parede, que transferem o peso do edifício por lajes nervuradas e quatro pilares.



         As lajes nervuradas em balanço possuem preenchimento cerâmico, um dos elementos mais característicos desse projeto, juntamente com a estratégia seguida para solucionar a implantação do edifício, trabalhando com meios níveis. O resultado é um espaço interno dinâmico, onde o visitante se depara, logo na entrada, com um jardim, um banco e o azul do céu.


         A vista modesta da rua, com o pórtico formado pela laje inclinada de cobertura e as duas vigas parede, esconde a complexa, porém simples, divisão do programa. Essa paradoxal característica arquitetônica da casa se manifesta em sua materialidade, tão fechada e escura da rua, tão aberta e iluminada de dentro.




         O meio nível, que marca a entrada, funciona como um grande patamar, um espaço nem público nem totalmente privado, onde luz artificial e natural se misturam, iluminando o jardim. A iluminação natural advinda da laje sem preenchimento, onde as vigotas transformam-se em pérgolas, compensa a possível falta de iluminação que o núcleo da construção poderia ter, devido às empenas laterais cegas com função estrutural. O piso cerâmico escuro ajuda a refletir e iluminar ainda mais o ambiente.





         A maneira como os pés direitos se distribuem, em contraponto ao elemento horizontal do grande vão da laje superior, geram dois curtos lances de escada em cascata, aproveitando a declividade do terreno a favor de melhor distribuição espacial.
         O projeto possuí muitos pontos em comum com outras casas construídas na época (empenas laterais cegas, concreto aparente, poucos pontos de apoio, iluminação zenital, etc) de arquitetos da mesma geração, Paulo Bastos porém consegue se utilizar de todos os preceitos e chegar a um resultado belíssimo, diferente em certa medida. O preenchimento cerâmico das lajes, ao mesmo tempo ocultando e demarcando a estrutura, juntamente com a distribuição programática, são os grandes feitos da Casa em Pinheiros.




         No último dia 28 de Fevereiro, faleceu o arquiteto Paulo Bastos, deixando um legado cuja Casa em Pinheiros é apenas a ponta do iceberg. Trabalhou ativamente durante toda sua carreira de 53 anos, com diversos projetos nas mais diferentes áreas. Talvez seus dois projetos mais conhecidos sejam o de restauro da Catedral da Sé e o Comando Militar do Sudeste, no Ibirapuera. 
         Parte a pessoa, fica uma produção admirável, que será responsável por inspirar quem conhecê-la. Durando enquanto o tempo durar.




         Fotografias: Flavio Bragaia
         Desenhos retirados do site do escritório de Paulo Bastos, que ainda está em atividade, mantendo vivo o legado do arquiteto. Vale a pena visitar o site, principalmente pela caprichosa organização dos projetos, com fotos, desenhos e memoriais. Para isso, clique aqui.
         Nota do falecimento do arquiteto: http://www.vitruvius.com.br/jornal/news/read/1246
         Todas as imagens retiradas dos seguintes sites:
         Demais informações:
         > ACAYABA, Marlene Milan. Residência Paulo Bastos (1970-1972). In: Residências em São Paulo: 1947-1975. São Paulo: Romano Guerra Editora, 2011.

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